Eles Vão Te Matar (2026)

🎬 Crítica Completa - Eles Vão Te Matar 

1. Abertura pessoal

Eu entrei em Eles Vão Te Matar esperando um exercício de excesso, daqueles filmes que já te avisam nos primeiros minutos que não querem delicadeza — e, de fato, ele é exatamente isso: um terror de ação e comédia em ritmo acelerado, com 94 minutos de duração, dirigido por Kirill Sokolov e lançado nos cinemas em 27 de março de 2026. O que me pegou logo de cara foi a sensação de que tudo ali estava sempre prestes a sair dos trilhos, mas de um jeito calculado, quase exibicionista. Não parecia um filme interessado em “apresentar mundo”; parecia um filme interessado em te arremessar dentro de um pesadelo de concreto, sangue e ironia. E eu achei isso muito sedutor no começo. 

Também ajuda muito o fato de o filme marcar a estreia em inglês de Sokolov, que já tinha um gosto declarado por cineastas como Leone, McDonagh, Park Chan-wook, Scorsese e Tarantino; isso aparece o tempo todo no DNA da obra, seja na estrutura “de nível em nível”, seja no humor agressivo e na violência coreografada como espetáculo. Eu não esperava que essa influência fosse tão escancarada, e ao mesmo tempo tão útil para o tipo de filme que ele quer ser. 

2. Resumo completo com spoilers

A história começa com Asia Reaves e a irmã Maria tentando fugir de um pai abusivo. Asia acaba atirando nele, é presa, e Maria fica para trás. Dez anos depois, Asia surge no Virgil, um arranha-céu exclusivo em Nova York, fingindo ser a nova empregada doméstica. O prédio é apresentado como moradia da elite, mas também como uma espécie de máquina de desaparecimentos e horror. Logo na primeira noite, mascarados invadem o quarto dela; Asia se revela muito mais perigosa do que parecia e mata todos. A partir daí, o filme deixa claro que não está brincando com suspense “limpo”: ele quer carnificina, paranoia e reviravolta sem pausa. 

Asia passa a procurar Maria, que também trabalha no Virgil. Quando confronta Lilith Woodhouse, a gerente irlandesa do prédio, descobre que o lugar é um templo a Satanás e que seus moradores alcançam imortalidade por meio de sacrifícios humanos. A própria estrutura do prédio vira uma armadilha viva: Asia foge pelos dutos, sobe por elevadores, desce por passagens de serviço, e o filme transforma a arquitetura num labirinto de horror. E aí vem uma das ideias mais perversas do roteiro: Maria não é simplesmente uma vítima perdida; ela já entendeu o funcionamento do Virgil e, chocantemente, decidiu permanecer ali. 

O núcleo emocional vira então uma disputa entre as irmãs. Maria conta que conseguiu escapar do pai pouco antes da morte dele por câncer, viveu de motel barato até ser contratada pelo Virgil e, quando foi poupada de um sacrifício, aceitou os benefícios de uma vida confortável em troca da sua integração ao sistema do prédio. Achei genial a forma como o filme transforma isso numa metáfora cruel: o horror não está só no culto, mas na sedução da segurança comprada com cumplicidade. Asia não aceita isso e abre caminho no banho de sangue — com machado em chamas, tiros, mutilações e um ataque quase cartunesco ao absurdo da situação. 

No clímax, Asia, Maria e Ray são levados ao último andar, onde o culto convoca Satanás, que se manifesta por uma cabeça de porco com os nomes dos imortais escritos na pele. Ray tem o nome removido e é morto de forma definitiva por Lilith. Em seguida, Satanás exige que Maria escreva o próprio nome e mate Asia. Mas Maria rompe o esquema de outra maneira: ela escreve o nome de Asia e se mata. Assim, Asia passa a ser imortal, e o filme entra de vez no território do delírio: ela mata Kevin, Sharon e os demais cultistas repetidas vezes, até confrontar Lilith numa luta final. Asia arranca a cabeça do porco, banha o crânio em água sanitária e fogo, o que apaga os nomes e condena os cultistas à morte pelas feridas que tinham acumulado. No fim, ela foge com o corpo da irmã; depois, corta o próprio nome da cabeça do porco e o troca por “Maria”, fazendo a irmã voltar à vida. As duas partem enquanto o topo do Virgil explode. É um final que quer ser brutal e, ao mesmo tempo, estranhamente terna na sua perversidade. 

3. Análise aprofundada

Personagens

Zazie Beetz carrega o filme nas costas com uma presença que precisa ser, ao mesmo tempo, ferida, feroz e quase insolente. Asia funciona como uma protagonista de sobrevivência: ela não é simpática no sentido convencional, mas é impossível não ficar do lado dela. O roteiro a constrói como alguém forjada pela violência e pela prisão, e isso aparece em cada decisão; ela entra no Virgil já em modo de guerra. Myha’la, por sua vez, é o eixo mais triste da história, porque Maria encarna o tipo de sobrevivente que fez um pacto com o monstro para continuar respirando. O choque aqui não é descobrir que ela foi corrompida; é perceber que ela escolheu a corrupção como anestesia. Patricia Arquette, Tom Felton e Heather Graham ajudam a pintar o prédio como uma comunidade decadente e teatral, embora o texto lhes dê menos profundidade do que o conjunto mereceria. 

Direção e roteiro

Sokolov dirige como se estivesse sempre tentando compensar a falta de sutileza com invenção formal. E, honestamente, isso funciona em boa parte do tempo. O filme tem uma estrutura quase de videogame, ou melhor, de “andar por andar”, que a crítica já apontou como cíclica; isso pode ficar repetitivo, mas também cria uma sensação de escalada constante, como se cada cômodo do Virgil escondesse uma nova punição. O roteiro mistura horror, ação e humor ácido sem pedir desculpas, e eu gostei disso mais do que eu deveria admitir. Mas também me irritou quando o filme faz piada demais com a própria insanidade, como se temesse ficar realmente assustador por mais de alguns segundos. A recepção crítica foi bem dividida exatamente por causa disso: alguns elogiaram o vigor da ação, outros acharam o humor adolescente e as referências muito derivadas. 

Fotografia e visual

O Virgil é o verdadeiro personagem do filme. A crítica o descreve como um espaço gótico e “maldosamente” teatral, e isso é justo: o prédio é uma espécie de organismo decadente, com dutos, shafts, escadas, corredores e uma lógica interna que parece desenhada para produzir pânico. A imagem do olho arrancado rolando pelo corredor, a cabeça de porco falante, o elevador como armadilha, os bastidores de serviço e o próprio contraste entre riqueza e decomposição fazem o filme parecer um conto moral filmado como parque de diversões do inferno. Eu não esperava que a produção soubesse aproveitar tão bem esse lado de casa-mal-assombrada corporativa. 

Trilha sonora e som

A trilha de Carlos Rafael Rivera, somada ao desenho de som, empurra o filme para uma energia quase hipnótica. O uso de sintetizadores retro e o impacto físico das lutas ajudam a manter tudo em estado de excitação permanente. Isso é decisivo porque, sem esse impulso sonoro, a repetição da violência poderia desabar. Em vez disso, o som ajuda a vender a loucura como espetáculo — e o filme claramente quer ser isso: um massacre coreografado com cara de festa maldita. 

Temas e subtextos

O que o filme realmente quer dizer, no fundo, é mais interessante do que a superfície pode sugerir. Ele fala de abuso familiar, da cumplicidade entre conforto e crueldade, e do preço de sobreviver dentro de um sistema que exige obediência. O Virgil é um condomínio satanista, sim, mas também é uma imagem da elite que se alimenta dos invisíveis e depois chama isso de “manutenção do estilo de vida”. O fato de Sokolov ter dito que a ideia nasceu de um apartamento estranho que ele alugou, com um buraco ligando unidades e um edifício cheio de mulheres idosas solitárias, dá ainda mais gosto de pesadelo doméstico à premissa. E o centro emocional é a irmã: a história inteira parece perguntar o que acontece quando duas pessoas traumatizadas reagem de forma oposta ao mesmo inferno. 

4. O que funcionou muito bem

O que mais funciona aqui é a energia. Quando o filme quer ser selvagem, ele é realmente selvagem. As mortes têm inventividade, a coreografia corporal é agressiva, o design do espaço dá personalidade a cada emboscada e Zazie Beetz sustenta tudo com autoridade física e carisma. A relação entre Asia e Maria também segura uma tensão emocional que impede o filme de virar apenas uma coleção de mutilações. E eu preciso admitir: a loucura do clímax, com a cabeça de porco, os nomes, a imortalidade e a explosão final, é exatamente o tipo de absurdo que faz o gênero ficar vivo quando alguém tem coragem de levar a ideia até o fim. 

5. O que falhou ou decepcionou

Ao mesmo tempo, o filme nem sempre confia na própria força. Em vários momentos ele parece tão apaixonado por seus modelos — Tarantino, McDonagh, Bong Joon-ho, Raimi — que esquece de respirar com voz própria. A repetição da lógica “subir mais um andar, matar mais gente, fazer outra piada” cobra um preço, e eu senti essa fadiga. Alguns coadjuvantes, especialmente os membros do culto, são mais caricatura do que presença dramática, e as piadas nem sempre acertam a mão. Teve hora em que eu pensei: “tá, já entendi o tom”, mas o filme insistia em mais uma camada de deboche. Não chega a estragar, mas enfraquece a sensação de descoberta. Isso bate com parte do consenso crítico, que reconhece a diversão do sangue e da estilização, mas aponta a repetitividade e a falta de originalidade como limitações reais. 

6. Interpretação pessoal

A minha leitura mais forte é que Eles Vão Te Matar é menos um filme sobre um culto demoníaco e mais um filme sobre como sistemas abusivos se perpetuam porque oferecem algum tipo de recompensa. Maria não é simplesmente “fraca”; ela é alguém que escolheu uma gaiola dourada. Asia não é só “forte”; ela é a recusa absoluta de aceitar a lógica do cativeiro, mesmo quando isso significa virar um monstro também. E o detalhe final, quando Asia devolve o nome à irmã ao custo da própria identidade no ritual, me parece quase uma fantasia de reparação impossível: como se o filme dissesse que amor entre irmãs, ali, só consegue existir depois de destruir tudo ao redor. Essa imagem ficou martelando na minha cabeça muito depois do final. 

Também achei muito interessante que o filme transforme o corpo em moeda. Ser sacrificado, ser imortal, ser poupado, ser marcado pelo nome, ter a vida escrita numa cabeça de porco grotesca — tudo ali fala de controle sobre a carne e sobre a sobrevivência. É um horror bastante físico, mas com uma ideia clara por trás: em certos ambientes, continuar vivo já é uma forma de corrupção. E isso, para mim, é o que dá algum peso ao exagero todo. 

⭐ Nota 7,5/10

É um filme irregular, repetitivo em vários trechos e por vezes preso demais às próprias influências, mas também é vigoroso, inventivo e divertido de um jeito sujo que eu respeito bastante. O que segura a nota para cima é a direção estilizada, a performance de Zazie Beetz, o uso criativo do espaço e a coragem de levar o delírio até o fim. O que impede uma nota mais alta é a sensação de que, em alguns momentos, o filme confunde barulho com personalidade. Ainda assim, eu saí com a impressão de ter visto uma obra que sabe exatamente como provocar reações — e, sinceramente, isso já vale bastante. 

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