🎬 Crítica Completa - Bola pra Cima
1. Abertura pessoal
Era uma sexta à noite, 18 de abril, eu tava zapeando no Prime Video sem muita esperança e vi "Novo do Peter Farrelly com Mark Wahlberg no Brasil na Copa". Pensei: "Farrelly é hit or miss total. Ou é Débi & Lóide, ou é Green Book, ou é uma bomba". Minha primeira impressão? O trailer já entregava que ia ser zoeira sem freio. Camisa da seleção, caipirinha, e Wahlberg correndo de umas tias com vuvuzela. Falei "tá, vou dar play só pra ver até onde eles têm coragem de ir". Spoiler: foram longe demais.
2. Resumo com spoilers
Então segura que lá vem bomba. O filme abre com Brad, interpretado pelo Mark Wahlberg, e Elijah, do Paul Walter Hauser, dois marqueteiros da empresa de camisinhas "SafeScore". Eles tão desesperados por um case de sucesso e resolvem propor o impensável: patrocinar a Copa do Mundo 2025 no Brasil com uma camisinha que tem as cores de todas as seleções. A FIFA topa porque, né, dinheiro.
Eles vêm pro Brasil comemorar antes da estreia. Aí acontece a primeira cagada: bêbados numa laje no Rio, Brad faz uma live mostrando o protótipo da camisinha e fala que "o Brasil vai golear dentro e fora de campo". O vídeo viraliza, vira crise diplomática, e o ministro do esporte brasileiro se ofende. A FIFA cancela o contrato, a SafeScore demite os dois na hora. Só que as passagens já estavam compradas, então eles decidem vir pro Brasil mesmo assim pra "curtir a Copa que eles criaram".
Daí vira "Se Beber, Não Case" versão Copa. Eles se metem com um figurão da CONMEBOL corrupto vivido pelo Benjamin Bratt, que quer usar o escândalo pra encobrir um esquema de venda de ingressos. No meio disso, cruzam com Sacha Baron Cohen fazendo um oligarca russo bizarro que coleciona mascotes da Copa, e Daniela Melchior como Sofia, uma jornalista brasileira que tá investigando tudo.
Reviravolta 1: descobrem que o vídeo foi vazado de propósito pelo próprio chefe deles nos EUA, pra dar um "golpe de marketing" e vender mais camisinha pela polêmica. Reviravolta 2: Elijah se apaixona por Sofia e decide entregar o esquema pra ela, traindo Brad.
O clímax é no Maracanã, na final Brasil x Argentina. Brad invade o campo fantasiado de "Tatu-bola gigante" pra fazer um pedido de desculpas ao vivo. Dá ruim, claro. Ele é preso, Elijah tenta resgatar, rola perseguição de camburão, favela, jet ski na Baía de Guanabara. No fim, o figurão do Bratt morre: ele cai de um bondinho do Pão de Açúcar tentando fugir com uma mala de dinheiro. Sim, morre mesmo.
Desfecho: Brad e Elijah se reconciliam, expõem o chefe americano, Sofia publica a matéria e vira heroína. Eles não ficam ricos, mas a SafeScore é processada e eles viram consultores de "como não fazer marketing". Última cena: os dois vendendo mate na praia de Copacabana, falando "pelo menos agora a gente tá por cima da bola". Créditos.
3. Análise aprofundada
Personagens: Brad é aquele Wahlberg raiz - marrento, boca suja, mas com coração. O arco dele é de "bro egoísta" pra "bro que assume a merda". Funciona porque Wahlberg tá 100% entregue na loucura. Elijah é o coração do filme. Paul Walter Hauser rouba cada cena. Ele é ansioso, atrapalhado, e a química dos dois carrega o filme quando o roteiro desanda. Me irritou quando tentaram forçar um romance entre Elijah e Sofia. Não colou. Já o vilão do Benjamin Bratt é caricato demais, parece vilão de desenho. Sacha Baron Cohen aparece 15min e some. Desperdício.
Direção e roteiro: Farrelly sabe filmar comédia física e aqui ele mete o louco. O ritmo é atropelado de propósito - 1h44 que parecem 3h. O roteiro do Reese e Wernick, de Deadpool, tem piada a cada 10 segundos. A cena que achei genial: eles tentando se disfarçar de jogador pra entrar no estádio e o Brad não sabe chutar uma bola. É tão absurdo que ri. Mas tem cena que marca pelo motivo errado: a sequência na favela é puro estereótipo gringo. Faltou consultoria brasileira ali, ficou ofensivo.
Fotografia, trilha e visual: O Brasil do Farrelly é filtro amarelo, samba 24h e todo mundo de Havaianas. A fotografia é genérica de comédia de estúdio. Nada memorável. A trilha? Só funk e "Waka Waka" em versão forró. Preguiçoso. Visualmente, o destaque é a cena do Tatu-bola no Maracanã. É tão escroto que fica bom.
Temas e subtextos: O filme quer falar sobre "cultura do cancelamento", marketing predatório e como gringo enxerga o Brasil. Mas não diz nada com coisa nenhuma. No fundo é só uma desculpa pra fazer piada de pênis por 100 minutos. Tem uma tentativa de criticar a corrupção no futebol, mas morre na praia.
4. O que funcionou muito bem
A dupla principal: Wahlberg + Hauser tem uma energia caótica que eu não esperava que fosse funcionar tão bem. Quando eles tão juntos improvisando, o filme voa.
Coragem do absurdo: A cena do bondinho, a invasão do Maracanã, o Sacha Baron Cohen lambendo uma taça da Copa. É tão sem noção que você respeita a audácia.
Ritmo: Mesmo cansando, não te deixa respirar. É piada, explosão, perseguição, piada. Pra ver desligando o cérebro, entrega.
5. O que falhou ou me decepcionou
Estereótipo nível hard: Me irritou quando todo brasileiro é ou malandro, ou corrupto, ou sambista. Farrelly, pelo amor, a gente não vive de carnaval.
Humor repetitivo: Depois da décima piada de camisinha você pensa "tá, entendi a premissa". Fica pesado e sem pulso.
Desperdício de elenco: Daniela Melchior e Eva De Dominici não têm nada pra fazer. Sacha Baron Cohen tá ali pra dizer que tá no pôster.
Não tem propósito: Como a crítica do CinePOP falou, é um filme perdido. Não é sagaz o suficiente pra ser sátira, nem burro o suficiente pra ser clássico trash.
6. Minha interpretação pessoal
Pra mim, "Bola pra Cima" é uma metáfora não-intencional sobre o próprio Farrelly. O Brad é ele: um cara que teve um sucesso absurdo anos atrás e agora tá tentando recriar a magia fazendo a coisa mais ofensiva possível, torcendo pra colar. A "bola" é a carreira dele. Ele chuta pra cima e reza pra cair no gol.
Repara num detalhe: o único personagem brasileiro com nuance é a Sofia, e ela é quem "salva" os gringos no final. É o filme pedindo desculpa. Simbolismo? O Tatu-bola é o Farrelly se fantasiando de Brasil pra tentar ser perdoado. Eu não esperava que fosse tão literal.
Teoria: o chefe americano que arma tudo representa Hollywood. Joga os caras no caos, lucra com a polêmica e sai ileso. Farrelly tá dizendo que ele é só um peão nisso tudo? Sei lá, talvez eu esteja dando crédito demais.
⭐ Nota: 4/10
Por quê? Olha, eu dei risada. Vou mentir? Teve 3 ou 4 momentos que eu gargalhei alto, principalmente por causa do Paul Walter Hauser. O filme tem a coragem de ser idiota até o fim e isso tem seu valor. Mas é irresponsável, cansativo e envelheceu 10 anos antes de lançar. A visão de Brasil é caricata a ponto de ofender, o roteiro se perde, e falta aquele coração que o Farrelly conseguia colocar até nas comédias mais escrotas dele.
Se você quer desligar o cérebro por 1h44 e ver Mark Wahlberg sendo preso de fantasia de Tatu-bola, vai fundo. Se você espera algo tipo "Green Book" ou até "Quem Vai Ficar com Mary?", passa longe. É um filme que chuta a bola pra cima e ela cai na sua cabeça. E dói.
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