quarta-feira, 25 de março de 2026

Amityvillenado (2026)


🎬 Amityvillenado - Crítica Completa 

Dá para sentir bem o tipo de bagunça divertida que Amityvillenado quer ser: uma comédia de terror independente que mistura paranormalidade, punk rock e amizade, com Paul Tucker e Jeff Van Gerwen controlando roteiro, direção e boa parte da engrenagem criativa. 

1. Abertura pessoal

Eu entrei nesse filme pela curiosidade mais sincera do mundo: o título já parece uma piada que foi longe demais, do jeito certo. E, olha, eu gosto quando um filme chega sem pedir licença e assume logo de cara que quer ser absurdo. O que mais me pegou foi perceber que não é só “um trocadilho esperto”; o projeto se vende como um encontro entre caos sobrenatural, cultura punk e aquela exploração sem vergonha do mito de Amityville que o próprio material promocional compara ao delírio de Sharknado. Isso já me colocou na mesa antes mesmo do filme começar. 

2. Resumo com spoilers

A trama, pelo que o material público confirma, acompanha Trey e Jib, dois punks que pegam a estrada até Amityville para ver a banda Skull Crusher. Só que o fim de semana deles desanda quando a famosa casa dos DeFeo é destruída por um tornado e, no meio dos escombros, eles encontram um objeto misterioso — a sinopse do site oficial fala em “um item misterioso”, enquanto outras descrições citam até um $2 bill e uma tábua Ouija enterrados no terreno. A partir daí, a coisa degringola para o absurdo total: uma entidade paranormal se funde ao tornado, a tempestade começa a sugar almas e Trey, Jib, a meteorologista June Weathers e o Officer Lipshits tentam impedir o reinado desse ciclone assassino. O material promocional confirma também que já existe pelo menos uma vítima sugada pela criatura, mas não lista, cena a cena, todas as mortes nem o desfecho exato; então o que dá para dizer com segurança é que o terceiro ato vira uma corrida para conter a ameaça antes que Amityville seja tragada de vez. 

3. Análise aprofundada

Nos personagens, o que funciona é o contraste. Trey e Jib são vendidos como “spirited punk rockers”, e isso é importante porque o filme parece depender muito da química entre os dois e da sensação de amizade meio insolente, meio infantil, que dá energia para a história andar. June Weathers entra como a peça mais “séria” do grupo, a meteorologista determinada, enquanto Lipshits parece existir como a válvula cômica da autoridade local. Eu gosto disso porque o filme não tenta fingir profundidade psicológica que ele não tem; ele vai direto no arquétipo e usa isso a favor da comédia. Ao mesmo tempo, dá para imaginar que o carisma do elenco precisa segurar muita coisa, porque não estamos falando de estrelas gigantes, e sim de um conjunto que precisa vender timing, estranheza e parceria. 

Na direção e no roteiro, eu acho que está justamente o maior charme e também o maior risco. Tucker e Van Gerwen não só escrevem e dirigem, como Van Gerwen também assina cinematografia, música e montagem, o que passa aquela sensação de filme feito por uma turma que quis controlar cada parte do brinquedo. Isso costuma dar unidade, identidade e um sabor muito artesanal. Só que também costuma cobrar um preço: quando um projeto assim estica demais, você sente a costura. E o próprio review público que achei bate nessa tecla ao dizer que o filme fica longo demais para a própria graça que tem, apontando 111 minutos e sugerindo cortes. Eu concordo com essa leitura em tese: a ideia é boa demais para afundar em gordura de runtime. 

Na fotografia, na trilha e no visual, a proposta parece ser a de um híbrido entre sujeira B-movie e energia de show punk. Como Van Gerwen acumula também música e imagem, imagino um filme com identidade muito amarrada no mesmo espírito: menos polimento, mais personalidade. E isso, sinceramente, eu respeito. O problema é que essa estética pode virar repetição se o filme apostar demais no mesmo gag visual — tornado, escombros, gritaria, referência, piada interna — sem variar o suficiente. Ainda assim, o conceito de um “tornado assombrado” sugando almas é visualmente forte porque é ridículo no melhor sentido: você entende o perigo em um segundo, e entende também que o filme não quer ser elegante, quer ser memorável. 

Nos temas e subtextos, eu vejo três camadas. A primeira é óbvia: o filme está tirando leite da vaca infinita que é Amityville, assumindo a exploração da franquia de forma quase metalinguística. A segunda é a amizade como resistência; Trey e Jib não estão só fugindo de um monstro, estão tentando preservar uma viagem, uma banda, um fim de semana, uma identidade. A terceira, para mim, é a mais engraçada: o filme trata o mito de Amityville como lixo cultural recolhido do chão e reanimado com punk rock. O fato de a trama começar nos escombros da casa destruída e de encontrar objetos enterrados no lugar reforça essa sensação de que o horror já virou sucata pop — e o filme sabe disso. 

4. O que funcionou muito bem

O conceito central é ótimo. Eu não esperava que uma ideia tão boba tivesse tanta clareza de execução no papel: personagens punks, uma cidade amaldiçoada, um tornado possuído, uma ameaça que literalmente suga almas. Tem um prazer genuíno nisso, porque o filme não pede desculpa por existir e, para esse tipo de produção, isso vale muito. Também me agrada o fato de que ele parece saber exatamente para quem está falando: fã de terror de nicho, de humor escrachado e de filme feito com amor ao absurdo. 

5. O que falhou ou decepcionou

O maior problema, pelo que os relatos públicos apontam, é o tamanho. 111 minutos para uma premissa dessas é ousadia — e ousadia às vezes vira inchaço. O review é bem direto ao dizer que há cenas que poderiam ser cortadas para melhorar o ritmo, e eu acho essa crítica muito plausível. Esse tipo de filme precisa ser rápido, malicioso e econômico; quando ele começa a se achar mais “filme” do que “piada monstruosa”, perde força. Então minha implicância aqui é menos com a ideia e mais com a possível falta de disciplina do conjunto. 

6. Minha interpretação pessoal

Para mim, o tornado é uma metáfora perfeita da própria franquia Amityville: um redemoinho que engole qualquer coisa que esteja por perto e transforma tudo em espetáculo. A casa destruída, os escombros, o item misterioso enterrado, o $2 bill e a Ouija board que aparecem em descrições de review — tudo isso parece dizer que o filme está brincando com a noção de que Amityville já foi enterrada, desenterrada, reembalada e vendida mil vezes. Eu li isso como um comentário meio debochado sobre o horror como produto reciclável. E tem outra coisa: por mais ridículo que o filme seja, ele parece apaixonado por essa própria ridiculez. É o tipo de obra que não quer “superar” o material de origem; quer transformar a sucata em festa. E, honestamente, isso é mais interessante do que fazer cara de sério. 

⭐ Nota: 5,5/10

Dou 5,5/10 porque a ideia é forte, a personalidade é clara e o filme parece saber brincar com o ridículo sem vergonha. Mas a duração, pelo que foi relatado, pesa, e eu sinto que essa mesma ousadia podia ser mais afiada e menos espalhada. No fim, eu respeito mais do que amo: é um desastre divertido, com cara de cult de nicho, daqueles que acertam muito no conceito e um pouco menos no fôlego.

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